O Dia Seguinte...
A noite não foi boa.
A insônia tomou conta, em todos os momentos eu via meu amigo dormindo... Sua voz invadia minha mente, a tristeza foi minha companheira.
Imagens passeavam pela minha cabeça, uma solidão amarga invadiu todo o meu ser. O saber que já não escreveremos mais a quatro mãos, o saber que não mais escutarei seu riso, sua voz, ó pedaço de mim.
Sei que este é o caminho da vida, sei que a hora vai chegar para todos nós. Que Deus me perdoe, mas não consigo o entendimento da morte.
Rosalvo Braga não foi para mim apenas um amigo: foi pai, irmão, companheiro presente nas minhas horas mais difíceis. Na morte da minha mãe, foi ele quem me acalentou ficando ao meu lado o tempo todo. Nas minhas tristezas, por muitas vezes, era ele que me socorria e aí sentávamos em um bar qualquer e ali pegávamos um pedaço de papel escrevíamos o momento enquanto sorvíamos a dor pelos copos da vida.
Escrevi um livro que ainda não publiquei, o prefácio é dele:
PREFACIO
AOS OLHOS DO MESTRE AFFONSO:
Rosalvo Braga
A vida se resume nos ouvidos? Certamente, se a figura é mestre de bateria, especialista que divide o conjunto em naipes de instrumentos, cria desenhos rítmicos, projeta cortes, seleciona integrantes, distribui a turma segundo as habilidades, enfim, bota a rapaziada para aprontar uma seqüência de toques que têm por finalidade o agrado dos ouvintes.
Só que esse tipo de agrado não é dos que fazem alguém se abobalhar em delicado encantamento, aqueles que acomodam a alma da gente em sublimes almofadas de nuvens.
Que nada! O efeito é explosivo: chora o cavaco, negão ataca de maracanãs, treme-terras, caixas-de- guerra. Só pelos nomes, dá pra ter idéia do que tá acontecendo. E lá vêm repiques bem pinicados, tamborins virados pra nem se sabe onde, num tatatá de interferir no ofício dos miolos.
O estardalhaço do som faz até pensar que falecidos bichos esgoelam pranto pelo couro arrancado de seu lombo, saudade furiosa do desfile de touceiras de capim que para eles, sim, isso é que é carnaval!
Quem ouve uma bateria de escola de samba — o que faz, meu senhor? Responda quem quiser, mas olhaí a mulata, quadris que socam prum lado e pra outro, pezinhos ciscando espaço de nada, braços se abrindo, mãos em rodopio no eixo das munhecas igualmente estonteadas.
O povão, se é povão, não nega fogo, seja qual for a cor da pele porque, escondida sob o verniz da aparência, a sustância negra traz (mais um) momento de triunfo. Lindo de viver é o jorro de gestos primitivos, esguichos de vontade liberada, gana irreprimível de gritar que a felicidade é possível.
Quem é que tem o poder de contrariar uma felicidade tão senhora de si, a ponto de puxar o céu pra um pedaço de chão?
Cada um só pode dar o que tem, não é mesmo? Então, quem dá alegria deve ter alegria de sobra. Pra ver se o raciocínio funciona, vamos dar uma espiada na fachada do Mestre Affonso a reger a bateria. Negativo: o homem tá mais sério que porco na chuva, sacarrolha moral sugando perfeição da sua turma. Mas “errar é humano”, acode a sabedoria popular. E quem diz que Mestre Affonso suporta erro?
Calo na mão de ritmista pode ser uma bela imagem para turista. Para o homem, não: é pouco. O brutamontes quer é sangue. Diabo de sadismo, esse arrancar prazer pelas vias da dor.
Ah, sempre pinta um que não dá conta do recado. Olho do Mestre expulsa o incompetente. Olho? Taí, a vida agora se resume no olho, aquele par de olhos que ameaça botar-se pra fora da cara. Olhos de Mestre Affonso rugem como boca de famintos e justiceiros. Irônicos, severos, brigões.
Bateria bate que bate, o chão lateja. Homens e mulheres cantam e dançam e são felizes. O fogo do carnaval arde que arde até se acabar em cinza. Quaresma.
O tempo corre como um rio renovador. O Mestre quer se achar, reincorporar-se em si mesmo. Cervejinha no fim da tarde, conversa de se jogar fora, mãos na cintura larga, joelhos em movimentos laterais. Fala, e muito, sobre caminhos e descaminhos do povo e da música do povo. Já é outro. A vida se resume nos olhos, confirma-se.
Olhos de Mestre Affonso também são criança que implora licença para brincar no quintal da vida. Dependesse deles, jamais haveria racionamento de energia. Porque qualquer emoção que lhe toque faz acender luz úmida nos faróis da fuça. Depois, é uma cascata de lágrimas que movimenta as turbinas da fraternidade.
Homem não chora. Será? Quando o homem é gente, pode. Conta seus casos & causos, Mestre. Os fiapos da vida pedem passagem. A vida não para; a vida só dá refresco a quem traz sua caneca para a procissão da boa vontade.
Acá, Mestre Affonso, bote um bago de lágrima no cordão dos homens-de-fato que lutam para derreter a insensibilidade dos que não acreditam na origem divina de todos nós. Amém.
Querido amigo Rosalvo, que falta que você já me faz.
SAUDADE
Rosalvo Braga Soares: escritor, crítico literário, professor universitário, compositor, carnavalesco, poeta, meu querido amigo na vida e parceiro no GRES Chame-Chame.
Rosalvo Braga é o branco mais preto de Minas Gerais. Vencedor de vários concursos de samba enredo, compositor da pesada e autor (não conheço outro) do único livro sobre a história de uma escola de samba, escrito fora do Rio de Janeiro. O livro se chama “Jacuba Corpo & Alma” e a Escola de Samba Unidos da Jacuba, também chamada carinhosamente de “Encantada”, é sua escola do coração na cidade de Congonhas. Conheci Rosalvo quando fui convidado para ser Diretor de Harmonia da Jacuba. Levado pelas mãos do Sander, amigo de muitas serestas, e do saudoso Zé Patrocínio, ex-presidente da Jacuba, cheguei a Congonhas e vi faixas e cartazes com o nome do Rosalvo, pra todo lado. Como já conheço há muito as mumunhas, pensei: “Deve ser algum político querendo tirar proveito da escola de samba”. À noite na quadra lotada, me apresentaram o homem: um branco de cabelos brancos, que mais parece padre do que qualquer outra coisa. Como eu estava em terra estranha, fiquei na minha. Fui conhecer realmente o “branco”, depois de tomarmos juntos umas muitas timbucas. Samba rolou, identidade total, amor na alma e no coração.
O telefone tocou, 30/09/2009, atendo tranqüilo, mas não era apenas mais um telefonema... A voz do outro lado da linha era calma, as palavras comedidas, mas meu coração bateu diferente.
Continuei ao telefone e de nada fui informado, desliguei, tomei um taxi e fui para casa. Logo ao abrir aporta senti algo diferente: o coração apertou, a vista escureceu, ouvi a notícia de que meu amigo, amigo de verdade, havia partido para os braços do Criador.
Os pés fugiram-me, a alma voou por todos os caminhos que percorremos juntos, verti lágrimas e as bebi nos copos da saudade.
Além de tudo que já falei, Rosalvo em muitas horas da minha vida foi anjo protetor. Aqui não cabe contar histórias porque são muitas... Apenas uma: Quando foi fundada a Escola de Samba Chame-Chame, fui procurá-lo para que fizesse a sinopse para o ano de 2007, o moço fez bonito e continuou comigo dizendo enquanto eu ficasse ele ficaria. É dele a sinopse para 2010, “Brasil Imperial”, e ele terá uma cadeira eterna dentro da agremiação. Toda vez em que ouvirmos um surdo de marcação, lá estará o Branco. Em todos os rodopios das baianas, lá estará o Branco. Todas as vezes que ouvirmos o lamento da cuíca será o nosso choro contido em notas musicais.
O mais interessante de tudo é que pensei nesta semana em fazer a ele uma homenagem, contando suas histórias, nossas histórias, seus livros, sua luta incansável pelo samba.
Pois é irmão, pois é... O samba perde um valoroso guerreiro e eu perco uma das pessoas – em todos os sentidos - mais importantes da minha vida.
Não tenho mais o que falar porque as lágrimas e a dor invadiram tudo.
Que Deus ilumine suas novas estradas e te cubra de bênçãos.
Um beijo meu querido irmão.
Obrigado, meu Deus, pela honra e a glória de ter nascido sambista.
Mestre Affonso
Caramba, faz tempo que não escrevo.
Na verdade, para mim, escrever ou é um ato de obrigação, ou então, as palavras são ditas pelo coração e vão saindo aos borbotões sem que eu consiga segura-las.
Nesses últimos tempos com a morte de um grande amigo, resolvi escrever um livro contando as histórias do bar que lhe pertencia. É uma coisa simples, tirada mais do coração que da mente, passagens que formam o mosaico de muitas vidas. O Bar do Pé frio (vocês vão conhecer no livro) foi o meu bar, um lugar diferente de todos os bares da cidade, e olha que freqüento muitos deles... Lá, embora toda vez que eu aparecia numa reportagem de jornal, o dono, o Pé Frio, com muito orgulho colocasse a reportagem na parede, eu não era o Mestre Affonso. No Bairro do Prado e no bar, sou o Afonsinho ou o “Funcinho” maneira que o Pé Frio me chamava. Aquele bar era meu refúgio, minha sala de estar com os verdadeiros amigos, amigos que de mim só queriam a presença. Aqui diante dessa tela fria enquanto escrevo, vão passando pela minha mente todos os cantos e recantos dos momentos vividos ao lado daqueles fantásticos companheiros de copos, de alegrias e tristezas, companheiros para o que der e vier. Temos nos encontrado sempre, tentado manter acesa a chama, mas falta o grande comandante. Falta aquele jeito moleque, aquela postura diante da vida, falta o sal... Pois é, e enquanto vou indo nessas mal traçadas linha, as lágrimas tomam conta e a saudade é tão grande que já não sei o que dizer. O melhor é parar e ir buscar um samba. Um samba dolente que me afague o coração.
O telefone tocou, um arrepio percorreu-me a pele, era um sinal... Enquanto a voz do Wanderlei Gomes contava a triste novidade minha cabeça voava no tempo. Eu o via empurrando um carro-alegórico pelas ruas do Bairro Ipiranga, honrando e amando as cores do Bloco Mocidade Partido Alto. Aquele empresário de tanta responsabilidade transformava-se num menino, cantando com orgulho o samba daquele humilde bloco que marcou de felicidade tantos corações. Um irmão na bateria, o Marcelo; outro irmão compondo sambas lindos para o bloco, o Adailton; o Fernando torcendo, e ele na avenida, sujo da graxa dos sonhos, ajudando-nos a levantar a taça do campeonato da união e da amizade. Foram muitos sambas... Um dia, aos dezessete anos (hoje já são trinta) meu filho pediu-me um emprego dizendo que seu sonho era trabalhar na Drogaria Santa Marta. Foi ele quem lhe estendeu as mãos. Pegou aquele menino que não sabia nada da vida e juntamente com seus irmãos o transformou em um homem. Meu filho ficou na drogaria até que ela fosse vendida para outro grupo, mas jamais se esqueceu, assim como eu, daquela fantástica família. Família que além de ser exemplo de luta e dignidade, também é exemplo de amor ao samba.
Enquanto eu ia para o cemitério para a despedida terrena, meus olhos gotejavam lágrimas, num misto de tristeza e felicidade. A tristeza era pela temporária despedida, e a felicidade, por ter partilhado da vida de tão belo ser humano. Depois de tudo encerrado, quando eu entrava no meu carro, seu filho, o Cris, abraçou-me e fez um pedido que jamais poderei negar. Ele pediu-me que fizesse uma roda de samba em homenagem ao seu pai. Claro que farei. Aliás, Cris, todos os sambas, todas as rodas de samba, são em homenagem a homens que foram e são iguais ao seu pai.
Fred da Drogaria Santa Marta, Fred Sambista, meu querido amigo Frederico Quintão, que Deus ilumine suas novas estradas.
Era só uma brincadeira e ele não entendeu. Era só um desejo mórbido de dominar o que nunca teve, e ele não entendeu. Era só a pobreza da fuga das frustrações que reconhece, mas que tenta esconder a sete chaves, sob a capa da liberdade que nunca teve. E o tolo acreditou que tudo cresce e que poderia mudar... Não cresceu, não entendeu, não aprendeu, não mudou. Continuou futilmente tentando pegar a vida, os homens, as amizades que às vezes nem existem. Vestiu a capa da covardia quando saiu, demonstrou claramente que não teve coragem de encarar a si mesma.
Voei com asas de Ícaro
Subi tão alto que vi a terra azul
Mas o sol da verdade derreteu-me os sonhos
Com o calor das mentiras, das covardias e das traições
Despenquei como subi
Se a subida foi de esperanças
Da queda só restou solidão
E a tristeza de ter sido enganado
Amanhã é meu aniversario, mas os preparativos começam hoje.
Minha mãe já foi às compras, vai ter macarrão italiano, bife a milaneza e aquela maionese que só minha irmã sabe fazer. Meu pai, calado como sempre, observa os preparativos tomando um copo da Antártica que tanto gosta. Presentes escondidos a quatro chaves, meus irmãos fazendo alarido, amigos que serão convidados sem que eu saiba, festa. Fico o que se esconde sob aqueles pacotes enfeitados, sorriso aberto no rosto, estou virando homem. Amanhã vou me vestir de calças compridas, sapato de couro, e aquela camisa de seda que deve ter sido comprada com muito sacrifício. O relógio não anda, o tempo não passa, vou dormir para adiantar o tempo. À meia-noite sou acordado ao som de música italiana, todas as luzes da casa estão acesas, o Boy (meu cachorro) me lambe, carinho pra todo lado. Eu filho adotivo, sinto-me dono do mundo, corro para a sala e começo a abrir os presentes. Um monte de coisas: carrinhos, bola de couro, uma chuteira... Mas lá no fundo vejo um embrulho que não consigo distinguir, um embrulho cheio de pontas. Não acredito no que vejo, a imaginação voa pelos ares, o coração dispara. Abro, ou melhor, rasgo o embrulho e lá está ela: uma bicicleta novinha com buzina e tudo. Visto minha melhor roupa e vou para a madrugada pedalar meus sonhos de criança.
Alguma coisa me desperta, acordo suado, era um sonho. Sentado na cama choro todas as ausências, todos estão mortos, a felicidade se esvai pelo ralo do tempo. Preciso ir para a rua para tentar ouvir um samba. Neste momento, mais que nunca, preciso voltar a ser o mestre que me ensinou a suportar os espinhos e valorizar as poucas rosas que me aparecem pelos caminhos. Vou para o samba.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Sou do tempo em que o lança perfume, Rodouro, era apenas para gelar as costas das meninas. Sou do tempo em que as marchinhas enchiam os salões e almas, de quem as cantava: com alegria, com tristeza, ou apenas com aquela saudade doce que machuca só um pouquinho o peito. Minha mãe caprichava nos últimos retoques da minha fantasia, a ansiedade tomava conta do meu peito, pronto, chegou a hora. Menino considerado fera na arte de tocar um tamborim de cintura, passaporte para o respeito dos mais velhos. Lugar privilegiado no caminhão do bloco caricato, avenida dos sonhos, depois, um clube da cidade. Namoradinhas, beijos roubados, tesão que não passava do fecho da calça... os tempos eram outros. Muitos e muitos carnavais, muitas saudades, muitos sonhos feitos e desfeitos. Mas o mais importante de tudo é que eu era feliz e sabia.
Não sei como nem onde nasci. O que sei vagamente é que fui deixado num caixote de papelão na porta de uma residência. Fui adotado pela família e registrado como filho aos nove anos de idade. Tive tudo que um menino de classe media pode ter, mas pelos meus amigos, pela minha rua, muitos faziam questão de lembrar que eu era bastardo, sem preocupar com meu choro e minha angustia de não saber (não sei até hoje) quem era. Mesmo não entrando pelos caminhos do mal, me tornei menino rebelde. Como sempre fui grande e forte, passei a resolver e calar pessoas na porrada. Veio a juventude, fui lutar. Lutei por 18 anos. Foi nas artes marciais que aprendi a dominar a vontade de arrebentar todos os que constantemente me humilhavam. Nesse meio tempo vieram a música e a poesia, vieram sonhos doces. Fui tocando meu barco, lutei muito, e um dia me tornei “mestre”. O orgulho que sinto desse titulo é porque através dele pude ajudar, e continuo ajudando muita gente. Mas não me sinto mestre, sinto-me um aprendiz de tudo e de todos. A cada dia o mundo me mostra suas flores e suas garras, a cada dia pessoas cruzam meus caminhos e são poucas, muito poucas, as que deixam o perfume das flores. A maioria deixa farpas ou quer apenas levar um pedaço de mim. Mas isso não me causa nenhum tipo de revolta, sei conviver com quase todas as situações. Só não sei conviver ou como agir, quando a dor é provocada por quem confio, em quem acredito.
A chuva tamborilando na minha janela, nas minhas janelas... Djavan cantando Drão, música do Gil, que retrata um retrato familiar das vidas de muitos de nós. Dolente, envolvente, verdadeira lição de vida. E eu olhando pela janela, sentindo abertas todas as minhas janelas do passado e do presente. Sonhos que se foram, problemas do dia a dia, os pecados são todos meus.
Nesta semana reuni minha família, rimos, choramos, falamos do passado, organizamos o futuro... Estou feliz. Falei tudo que queria, ouvi o que precisava, vou seguindo em paz. A chuva continua Djavan começa a cantar Oceano. Dá pra ver o tempo ruir por aqui, enquanto no fundo da alma descortina-se um sol maravilhoso, o céu de Deus. Um cigarro preso em meus dedos, um sorriso aflorando nos lábios, missão quase cumprida.
Muita gente que se diz bamba anda dizendo por aí que o primeiro samba gravado no Brasil foi o “Pelo Telefone”, de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga e Mauro de Almeida, o Peru dos Pés Frios. Tá tudo errado. Embora grafado no disco como samba, o Pelo Telefone é um maxixe e sobre ele existem muitas histórias. Uma delas conta que esse “samba” era um samba-versado cantado na casa da Tia Ciata, e que os dois “autores” roubaram a coisa. Tanto que o Donga registrou somente a música e tempos depois o Mauro de Almeida registrou a letra. Alguns historiadores defendem que Mauro teria apenas feito o registro por escrito, não sendo de fato parceiro de Donga. Confusões, roubos e divagações à parte, da mesma maneira que existem dúvidas quanto à verdadeira autoria de Pelo Telefone, não se pode concluir com certeza qual foi o primeiro samba gravado. Em 1917, o samba Pelo Telefone se tornou o marco inicial do gênero, mas antes dele, que foi gravado na Casa Edson, no Rio de Janeiro, a gravadora Odeon, por exemplo, registrou o chamado samba pioneiro, na série lançada entre 1912 e 1914, Descascando o Pessoal e Urubu Malandro, classificados como samba no próprio catalogo da fábrica. Na série de 1912 a 1915 consta A Viola Está Magoada, de Catulo da Paixão Cearense, interpretada por Bahiano e Júlia Martins, além de Moleque Vagabundo, de Lourival Carvalho, também identificados como samba. O selo Columbia editou série entre 1908 e 1912, aparecendo nela como “samba” a gravação Michaella, interpretada por Bartlet; Quando a Mulher não Que, com Arthur Castro, e No Samba, gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro. E assim esse meu samba que já foi chamado de zambra, zambo, zamba ou ainda mais ancestral e simplesmente, batuque, vai singrando os mares da música universal. Sua família é muito grande e se divide pelo Brasil afora onde, desde há muito tempo, seus parentes – avós, tios, sobrinhos, primos – são conhecidos por muitos nomes às vezes estranhos como lundu, jongo, maculelê, fofa, samba-de-roda, maxixe, samba-lenço, partido-alto, semba e tantos outros. O samba foi mencionado na imprensa pela primeira vez em 1832, pelo jornal satírico O Carapuceiro, editado no Recife, entre 1832 e 1842, por um religioso, o Padre Lopes Gama. Em 1838, o Padre Gama se refere a “samba d’almocreves”, classificando o estilo musical como coisa própria da periferia, do meio rural (almocreve era o serviçal que cuidava das mulas e burros). O samba tem hoje espaço garantido na mídia, espaço esse conseguido às duras penas. Penas que vão do chicote (literalmente) até a discriminação que ainda hoje acontece.
Disse o sábio Vinícius que: “Fazer samba não é contar piada, quem faz samba assim não é de nada, o samba é uma forma de oração”. E é dessa forma que nós sambistas queremos que ele seja visto e respeitado. Quem passou plantou as sementes, quem está, que não deixe de regar a planta, e quem virá, que continue colhendo os frutos da frondosa árvore da nossa arte maior.
(Fonte de pesquisa: História do Samba, Editora Globo).
OBRIGADO, MEU DEUS, PELA HONRA E A GLÓRIA DE TER NASCIDO SAMBISTA.
Blog: mestreaffonso.zip.net
Nossa mãe, quanto tempo faz que não escrevo.
Para mim, escrever é um ato solitário, uma maneira de derramar pelas folhas de papel pedaços da minha e de outras vidas. Para mim é algo que faço meio que como escondido de mim mesmo, tenho a mania de viver as minhas e as dores de outras pessoas. Fico olhando para essa tela fria, imaginando cenas, tentando compor o mosaico do que às vezes não entendo. É como se o tempo parasse ou voltasse, é como se eu pudesse abraçar a vida e a morte. A mente vai ditando frases, o corpo às vezes arrepia, sentimentos novos e antigos se misturam em frenesi total. Desde pequeno sempre gostei de rabiscar minhas mal traçadas linhas. Tento compor uma canção e não dou conta, tento ser poeta e não consigo, só não tento decifrar o amor, porque nunca o entendi. Virei mestre do samba, mas sou um péssimo aprendiz da vida. Todos os tombos que tomei e tomo, são frutos semeados pelas minhas próprias mãos. Eu nunca soube cultivar o amor, não aprendi a arte da falsidade, sou franco atirador em tudo aquilo em que não acredito; sou oito e oitenta num mundo em que ser quarenta é mais negócio. Nossa mãe! Misturei um monte de coisas e perdi o foi da meada. O importante é que estou sentindo uma gostosa sensação. Estou escrevendo pra mim mesmo e só eu entendo essa minha enorme confusão.Tarde quente, sento-me num banco de praça e vou passando em revista a tropa dos meus sentidos. No balanço final, estou no verde porque fui por muitas vezes abençoado pelo Criador. Jesus Cristo entrou em minha vida suavemente, não me obrigou a seguir as vontades dos homens, fez-me um crente sem a obrigatoriedade de seguir nenhuma religião. Continuo sentado, já não medito. Olho o verde da natureza, ouço o gorjear dos passarinhos, suavemente sinto a brisa fresca massagear meu rosto. Ao meu lado senta-se um senhor, olha-me, começa a falar dos perigos da cidade e da sua desilusão com o mundo. Fala das guerras, das mazelas da humanidade, fala-me do quanto os homens se afastaram de Deus. Escuto em silêncio, respeito a vivência daquele velhinho, mas não me atenho e faço-lhe uma pergunta:
- Quem é o senhor?
Ele sorrateiramente olha para todos os lados, e com uma voz bem baixinha, responde-me:
- Sou Papai Noel.
Começo a rir e imagino estar diante de um louco, rebato:
- Onde está seu trenó, onde estão suas roupas, onde foi parar aquele sorriso largo estampado no rosto? O velhinho olha para o céu e com ar cansado responde:
- Soltei as renas com trenó e tudo, meu sorriso se perdeu nas maldades dos homens, não uso mais aquelas roupas e nem carrego brinquedos, porque as crianças hoje brincam com AR-15 e tenho medo de assaltos...
Em algum lugar da vida parei o trenó, soltei as renas, tirei a fantasia de Papai Noel.
Em algum lugar da vida, talvez por ter perdido quase todos os meus, fiz da árvore a fogueira que hoje me aquece a alma e os sentimentos. Transformei a ceia em ofertas aos necessitados, parei de dar apenas brinquedos e também passei a dar amor.
Foi nesse instante que senti as mãos do Criador abençoando meus passos, foi nesse instante que pela primeira vez vi o sorriso de Jesus Cristo.
Feliz Natal para todos.
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