Em 2012 vou para as avenidas, interior e capital, com meu time modificado, comigo muito modificado.
Mas como sempre foi em toda a minha vida, o samba vai comigo falando alto e remexendo as minhas entranhas, o samba é tudo que eu sei...
“Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
“Quarta-feira sempre desce o pano”.
Valeu Seu Chico Buarque de Holanda: Deixarei a dor em casa me esperando, quarta-feira sempre desce o pano, a vida é mesmo um palco...
Hoje eu queria um colo.
Sentir o calor de coxas quentes sem o desejo do sexo. Sentir um porto seguro, estar um pouco mais perto de Deus.
Hoje eu queria uma música suave cantada por um coral de anjos e ver nesse coral todos os meus parentes e amigos que se foram.
Hoje eu queria estar longe das maldades e das falsidades do mundo, hoje eu queria ouvir o som de uma cachoeira de águas límpidas, redemoinhos de sinceridade, peixes coloridos nadando livres sem medo dos anzóis, dos engodos, das iscas do dia-a-dia.
Hoje eu queria a paz de um amor tranqüilo cheio de verdades. Hoje eu queria a paz que jamais tive, queria ser somente Afonso, estar longe do Mestre.
Hoje eu queria um samba dolente que falasse do amor e da paz, queria uma favela sem criminalidade, queria crianças brincando de ser feliz.
Uma noite de luar intenso, daquelas em que a lua entra na gente. Queria ir entrando pela madrugada sem horário para dormir ou para adormecer de vez.
Hoje eu queria um colo de amor sincero, mãos passeando pela minha cabeça, hoje eu queria uma massagem na alma, no corpo, nos sentidos.
Hoje não tenho remorsos, mas também não tenho nada para me vangloriar. O espelho mostra em meu rosto e alma as marcas do tempo, o espelho mostra que se houve felicidade eu não tive a inteligência ou a dignidade de perceber.
É, pensando bem, hoje eu não queria ser eu!
Eu era um adolescente e ela - vamos chamá-la de Eva - era uma das meninas mais lindas do Bairro do Prado, dois anos mais velha que eu. Rosto de boneca, corpo escultural, pele macia lembrando uma pétala de rosa. Sua fala era mansa, seu jeito irresistível. Eva era o sonho de todos os garotos, espinho nas gargantas das meninas, furor até entre os homens adultos.
Foi criada por uma família como uma filha adotiva e foi desvirginada por um rapaz desta mesma família. A partir daí a menina passou de mão em mão até que um dia um dos rapazes da turma a encontrou numa boate, Eva havia entrado para a prostituição. A menina linda desejada por todos nós havia virado esgoto de esperma, usada como produto, mas rejeitada como gente, era o começo do fim da Cinderela.
Com um amor platônico eu a seguia, mas acho que ela além da amizade e do tratamento cordial ela não me notava. Mas eu a amava com a tara dos homens e os sonhos de menino, meu sonho era tirá-la da prostituição, ser dela e torná-la minha, eu a seguia pelas noites, pelos bares, pelas boates. Nunca tivemos relação sexual, mas Eva povoava todos os meus sonhos, todas as minhas aspirações, eu me possuía na sua intenção. Mas a vida tomou seus rumos e nunca mais a vi.
Dia desses entro em um bar ali na Praça Raul Soares, buscando saciar a fome e tomar a última cerveja daquela noite. De repente sinto mãos tocando meus ombros, viro-me e não reconheço quem me toca. Não tive reação quando a mulher tocou meu rosto e carinhosamente me chamou de Afonsinho, coisa que a gente do Prado faz até hoje.
Fixei meu olhar naquela mulher cuja vida de prostituta destruiu física e moralmente, reconheci Eva. O rosto transformado pelas agruras da vida, corpo deformado e doente, Eva para muitos havia virado lixo de gente.
Nós dois não sabíamos o que dizer, restou-nos um abraço. Naquele abraço conversamos todas as conversas e revivemos um passado puro que já não existe mais. Ofereci-lhe um prato de comida e ela amargamente rejeitou dizendo que angu de um dia não sustenta cachorro. Perguntei-lhe pela vida e ela me respondeu secamente:
- Puta só tem vida enquanto tem corpo.
Mais uma vez ela acariciou meu rosto e foi-se embora sem pedir ou deixar nenhuma forma de contato, eu também não disse nada e nem tentei detê-la. Fiquei apenas olhando enquanto Eva sumia pelas ruas. Paguei a cerveja que não bebi, fui para o carro e chorei muito. Não chorei apenas por Eva, chorei por todos aqueles que se entregam e se acovardam diante da vida. Chorei por aqueles que iludem a si mesmos aceitando as migalhas que serão cobradas pelo futuro.
Agora aqui sentado me lembro do reencontro e fico pensando se Eva existiu ou se foi um sonho que tive. Penso em quantas Evas existem, penso nas esquinas do mundo...
Penso que algumas situações são tão cruéis que em muitos casos não deveria haver o reencontro.
Era uma tarde de sábado, eu um garoto muito forte e disposto, treinamento duro na academia. Faixa roxa na cintura (longe do início do verdadeiro aprendizado que viria com a faixa verde) apanhei demais ao treinar com os faixas pretas. As pancadas, chutes e socos, vinham de todos os lados e eu os recebia quase que passivamente, não conseguia me defender. Eram as primeiras pancadas da vida de um jovem sonhador.
Mais tarde com o corpo cheio de hematomas, fui tomar um banho para ver se tirava um pouco das dores do corpo. A água fria (não havia chuveiro quente) gelava-me a alma e eu estava muito para baixo, humilhado mesmo. Meu sensei (mestre) Akio Yokoiama entra no banheiro e coloca-se no chuveiro ao meu lado, eu nem olhei para ele que foi quem mais me bateu naquele dia.
Enquanto se ensaboava ele me perguntou se eu estava muito machucado, eu disse que sim. Foi aí que recebi a maior das lições, quando ele disse.
- O mundo pode te machucar muito mais, coisas acontecem e podem vir de onde não se espera. Pode vir de quem acreditamos e que amamos com pureza.
Sem que eu respondesse nada ele continuou:
- Se você tiver que atravessar um caminho e nele sob uma pedra, mas com o rabo de fora estiver uma cobra, pegue-a pelo rabo e esmague sua cabeça sobre a pedra. Não tenha piedade, não haja com o coração porque senão a cobra vai te matar com seu veneno. Muito cuidado “Fonso”, cobras humanas existem.
Hoje, aos 62 anos de idade, estou aqui pensando nas cobras, na minha juventude, no meu sensei. Alguns podem dizer que eu poderia evitar as cobras, mas é que às vezes elas se parecem tão inofensivas que muitas eu não evitei. Talvez eu tenha me encantado com suas falsas cores e o amor que senti por elas tenha me feito esquecer seu veneno. Mas ainda é tempo - com paciência - de esmagar-lhes as cabeças...
Agora estou ouvindo Ivans Lins, absorvendo com a alma as suas palavras:
“Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo...
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores...
Pede a banda
Prá tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede a banda
Prá tocar um dobrado
“Vamos dançar mais uma vez...”
É Ivan Lins, pede a banda pra tocar um dobrado que eu continuo aprendendo a lutar e tendo que esmagar cobras... Mesmo assim, viva o samba!
Djavan cantando eu aqui vadiando em pensamentos. Hoje não choveu, as lágrimas de Deus não molharam a terra tão devastada pelos homens.
É Natal. Daqui a alguns dias o Papai Noel vai visitar quase todas as casas, quase todas.
Aí, Papai Noel, dê um drible nas verdades do mundo e distribua presentes nas mais humildes favelas, nos hospitais, nos asilos. Distribua afeto para os que sofrem, acaricie os corações dos solitários.
Meu Natal vai ser um pouco diferente. Vou ver meus netos, minha nora e meu filho, e depois sigo a rotina de anos e anos: andanças por becos e vielas de mim mesmo, e depois vou para a janela da sala do meu apartamento. De lá avisto a cidade. Uma bebida na mão, coloco o som bem alto, fico vendo as festas dos vizinhos. À mente virão lembranças de tempos que não voltam mais.
Meus pais e meus irmãos passearão pelas salas dos meus sonhos, o amor que não tenho gargalhando talvez para um novo amor, eu sorrindo para o luar ou para a chuva. É a vida...
Mais um gole ou mais uma garrafa de qualquer coisa, conteúdos não importam. O que importa é o álcool queimando a garganta, chamando o sono para aplacar as dores do peito.
Quando eu for para o meu quarto vou agradecendo a Deus por tudo que sou. Embora o coração teime em ficar apertado, tenho a certeza de que irei em paz com minha consciência.
Feliz Natal para mim.
Hoje pela primeira vez vou ver ao vivo e a cores os meus três mosqueteiros, meus três netos, os trigêmeos. Surdos, cavaquinhos e tamborins seguram firme o ritmo da minha vida, emocionam-me.
Antes de sair vou tomar um calmante porque não sou de ferro, existem momentos em que me transformo em um pote de manteiga, e derreto, escorrendo pelas galerias dos sentimentos.
Eu que infelizmente vivo longe dos Marra, dos Gaetas, enfim, de todos os parentes diretos e indiretos, começo a ver formado ou fortalecido o clã dos Marra aqui em Belo Horizonte.
O encontro está marcado para as 19 horas, são 16 horas agora. Meu coração está acelerado, minha mente vagueia sem destino certo ou com muitos destinos mais que certos. Fui!
São 18h30min horas, entro no carro, ligo, debruço-me sobre o volante, lágrimas, muitas lágrimas de felicidade. Agradeço a Deus, agradeço à Betzaida, minha nora, rezo por meu filho Afonso Henrique, agradeço a todos os anjos que me cercam. Jamais tive medo da morte, mas neste momento peço a Deus que me dê a felicidade de estar mais algum tempo com eles, poder curti-los.
Chego ao prédio, meu filho me recebe na portaria, vou sonhando pelo elevador. A porta do apartamento se abre, minha nora me abraça, vou entrando. Meu filho manda-me lavar as mãos, obedeço. Devagar entro no quarto e os vejo, três anjos. Antes que eu pudesse começar a chorar meu filho coloca o Felipe em meus braços, o seguro com carinho enquanto abobalhado olho pra seus irmãos. Felipe coloca a mãozinha em meu peito, olha a cara do avô, vou para perto do Rafael, acreditem, ele sorri para mim. Vou para perto do Bernardo que dorme a sono solto, não quer nem saber, hoje não é dia do vô me encher o saco, quero mais é dormir.
Fiquei lá por umas duas horas, jantamos e tomamos umas cervejas. Despeço-me da Beth, saio com meu filho e tomamos a “penúltima” em um bar em frente ao prédio.
Hoje não fui ao samba, voltei para casa, vim assoviando pelo caminho. Entro em casa e foi aqui que desabei. Fiquei imaginando que se meus pais estivessem vivos hoje seria dia de festa, a noite ficaria pequena. Chorei muito, revi toda a minha vida, tive um encontro com Jesus Cristo que prometeu levar meu pedido ao Pai.
Pedi que Deus conduzisse os meus netos pelas suas mãos. Que a honestidade, a lealdade e a honra sejam seus nortes de vida. Pedi também, com muito fervor, que os três sejam sambistas e que no futuro, quando eu me chamar saudade, que cantem um samba de amor pelo avô.
Obrigado, meu Deus, muito obrigado.
É cheiro de mato, é terra molhada.
Nenhuma guerreira, mas tem trovoada.
O lugar é paradisíaco. A mata encobre as montanhas, um pequeno riacho corre mansamente ao lado da casa, flores e arvores cobrem o terreno, um quiosque onde sentado me abrigo da chuva que cai torrencialmente.
Lá em baixo uma longa estrada cheia de monstros de ferro que por elas serpenteiam. Dentro dos monstros famílias, amantes, amigos ou solitários como eu. Uns com destinos certos, outros tentando se encontrar, gente. Não estou alegre e nem triste, apenas observo o mundo à minha volta com a indiferença do tudo e do nada. Apresentaram-me a paciência e hoje ela é minha mais fiel companheira.
Dentro da casa meus amigos desembrulham os pacotes que trouxemos do supermercado, e eu aqui fora olhando a chuva, tentando me desembrulhar. Imagens e sons passeiam pela minha mente e meio descrente vou desenrolando os novelos da vida. Em meio à chuva um pássaro pousa em um galho perto de mim. Ele canta timidamente como que chamando minha atenção, dá-me vontade de tocá-lo, acariciá-lo, fazer dele meu confidente, meu amigo.
Dentro da casa gelam as cervejas, cachaças já circulam pelos copos, o tira-gosto vai sendo preparado com carinho. Alguns batem papo, mas eu prefiro a solidão deste momento, reflexões da natureza em mim. A chuva aumenta e o cheiro de mato invade-me as narinas e a alma. Um sorriso interior invade-me os sentidos, não sei se rio de mim ou para mim, mas existe e persiste o sorriso.
O pássaro aumenta seu canto, os galhos balançam ao sabor dos ventos, o pássaro se despede de mim e vai embora. Deve estar voltando para o ninho, para as asas da sua amada. Meu riso aumenta.
Meus amigos que até agora respeitaram minha solidão entenderam que já chega, aproximam-se. Cervejas são abertas, a cachaça corre pelos copos, o tira-gosto começa a tirar o gosto da minha solidão.
Um violão aparece nas mãos do violeiro, canto meu riso, canto meu canto enganando o desencanto. A bebida já faz efeito, entrego-me aos risos e lágrimas dos poetas, saio para a chuva e faço-a lavar minha alma.
É cheiro de mato, é terra molhada.
Ainda não há nenhuma guerreira, mas tem muita trovoada...
Adquiri a mania de andar pelas ruas. A casa sufoca-me, encurtaram-se meus espaços, as vontades já não são latentes, os sonhos se amedrontaram e hoje se escondem sobre as dobras de mim mesmo. As ruas formam mosaicos da vida, as calçadas são plataformas, qualquer beco ou viela fazem-me refletir, ensinam-me...
Era dia ainda. A chuva caia intermitente, uma esquina cheia de lixo. Papelões, jornais, restos de feira, eu parei o carro.
Um velho igual a mim recolhia as sobras, talvez para levar para casa e alimentar aqueles que o viam como ídolo, pai, provedor. Criteriosamente ele colhia as sobras: um abacaxi meio podre, molhos de hortaliças já passadas, tomates amassados, passados dele mesmo, passados do velho...
Fiquei ali parado olhando, mas ele em momento algum percebeu minha presença. Era como se eu não existisse, era como se o mundo não existisse, era a necessidade que falava mais alto. Mundo cão.
Minhas lágrimas não o incomodaram, afinal de contas, em nada minhas lágrimas mudariam nada, era a sua realidade.
Mas naquele momento as minhas realidades mudaram. Se para aquele homem o futuro seria apenas o alimento e a morte, para mim existe um imenso horizonte cheio de perspectivas e realizações, só depende de mim e dos que queiram seguir-me com fé e coragem de um novo amanhã.
Se para aquele humilde homem o que importa é ter na panela alimentos para o estomago, para mim ainda existem os alimentos do corpo e da alma, basta que eu os procure e encontre com fé e respeito a tudo que Deus me oferece na vida.
Fiquei por longo tempo naquela esquina olhando o velho, na verdade eu olhava a mim mesmo e fui crescendo.
Entendi que posso e preciso dividir, mas que só depende de mim mesmo a minha felicidade.
Se ninguém quiser ou tiver a coragem de vir comigo, como um ermitão, devo ter a coragem de abraçar a solidão. Já vivi muito, sou amado muito, tenho que manter o riso e a felicidade que mora dentro de mim.
Fui honesto com a vida e as pessoas, sou honesto comigo mesmo e essa honestidade é tudo que levarei para onde eu for.
O amor é a possibilidade do possível e de tudo aquilo que tenhamos a vontade e a coragem de assumir.
Obrigado velho.
Naquela esquina, naquele momento pude aprender com você, embora não tenhamos trocado nenhuma, nem uma palavra, que a vida não se restringe a pessoas.
A vida se restringe quem queira nos acompanhar de verdade e principalmente a nós mesmos.
No seu catar de lixo eu descobri grandes ensinamentos.
Obrigado, meu velho!
Hoje resolvi falar de uma praga que assola nossas vidas, os que “julgam”...
A maioria dos que gostam de julgar e opinar com maldade na vida dos outros são os piores da espécie humana, praga daninha.
Derrotados, mal amados, péssimos pais, péssimos amigos, péssimos filhos e irmãos, mas julgam-se no direito de opinar em todas as vidas daqueles que os cercam causando danos às vezes irreparáveis.
Nas nossas vitórias são os primeiros a se aproximar buscando vantagens, nas nossas dificuldades são os primeiros a se afastarem deixando-nos a sós e ainda criticando nossas atitudes, nossas vidas, nosso modo de ser.
Particularmente aprendi a conviver bem com todos (são muitos) os que pertencem a esta classe maldita da raça humana. Encaro-os de frente ou simplesmente ignoro-os e sigo a minha vida agradecendo àqueles que verdadeiramente me querem bem, agarro-me a Deus e vou em frente.
Mas eu não vivo só. Quantas vezes senti a dor da infâmia na carne porque esses “juízes” atingem ou atingiram pessoas que me são caras. Quantas vezes...
A maior de todas as tristezas é que muitas vezes esses juízes estão nos seios das nossas famílias e família a gente não escolhe. O que a gente faz é tentar esconder as podridões aumentando assim o nosso próprio risco, porque mais dia menos dia eles virão para nos devorar. Se deixarmos eles destroem nossas amizades, convivências e amores, são especialistas na arte do mal.
Dia desses estava eu em um velório – já vi isto várias vezes na vida – o corpo nem havia esfriado e irmãos já brigavam pela herança. Uma briga tão cruel e nojenta que atingiu a todos os presentes, a todos que foram levar suas últimas reverências ao morto. Ao invés do amor paternal o que restava naquele momento era a ganância pelos despojos materiais, pela herança, contabilidade pura e simples.
Muitos hão de dizer que estou revoltado, estou sim. Revoltado com o que vi no velório, revoltado com todos aqueles que sob a capa falsa da bondade querem nos impingir suas “verdades” sem que a verdade habite neles.
Não sou o melhor, tenho um monte de defeitos, mas agradeço a Deus por não pertencer à classe dos juízes da vida alheia, que tentam de todas as formas destruir o amor que existe em nós.
Escrevi esse desabafo em homenagem a todos aqueles que sofrem na carne o julgo e a covardia do lixo da raça humana, os julgadores do mal.
“Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito não sou mais um sonhador. Chego a mudar de calçada quando aparece uma flor e dou risada do grande amor. Mentira!”
Salve Chico Buarque, salvem todos os poetas, todos os bêbados, todos os desgraçados, porque são eles que fazem a poesia da vida.
Salvem até os insensíveis, os falsos e os mentirosos, porque são eles os mestres na criação das ilusões que nos alimentam por algum tempo.
Salvem as crianças que vivem no mundo da verdade e da franqueza, salvem os velhos que através do tempo aprenderam a melhor suportar e entender as agruras da vida.
Salvem as flores, as matas, os rios e mares, salvem todos os orixás.
Que o pai maior nos acolha na partida e nos leve para o campo sagrado onde só existe a bondade. Lá reencontraremos os nossos, lá, finalmente, estaremos livres das maldades dos homens. E quem sabe se por lá encontraremos a verdade do amor.
Salve-me Pai!
CORAÇÃO X RAZÃO
Foi um final de semana diferente para mim, reflexivo, decisivo.
Decisões são fáceis de tomar, desde que não sejam as decisões do coração. Coração não decide, assume posturas, sangra, sofre, ama sem ter olhos, sem barreiras. O coração em certos momentos é nosso pior conselheiro; quem decide, embora às vezes demore um longo tempo, é a razão.
Enquanto o coração reluta, tenta esconder o que não queremos ver, a razão de mansinho vai percorrendo todos os caminhos empurrando para longe as esperanças, as mentiras e os engodos que facilmente driblam o coração.
Não é fácil fazer com que o coração aceite as razões da razão, mas é vital e chegada a hora em que a razão explode dentro de nós, só nos resta sucumbir aos seus ditames para que possamos alçar outros vôos, viver e sonhar novamente.
Neste final de semana ouve o encontro do meu coração com a minha razão. Não foi fácil.
Enquanto o coração ardia na chama da esperança, a razão mostrava-me os caminhos dos desencontros. A razão demonstrou tudo ao coração, chorou de tristeza, mas eram as lágrimas da razão.
Coube ao coração, mesmo que aturdido por tantas verdades, aceitar, mantendo assim pelo menos os caminhos da dignidade.
Assisti a tudo de pertinho, sem interferir. Embora as duas partes façam parte de mim mesmo são independentes, estou cansado, já não sei e nem quero mais discutir.
O tempo vai demonstrar certezas e convicções, o tempo como sempre fará a sua parte, às vezes o tempo é cruel, arrasa tanto que não tem volta.
Saí do encontro sem reticências. O coração ficou triste, muito triste, e a razão respeitando sua dor foi-se para um canto e emudeceu.
Eu saí pelas ruas, andei pela cidade. Vi casais se beijando, parei para observar um rapaz vendendo bombons. Quanto será que ele ganha em cada bombom, será que vale mesmo à pena tanto esforço? Para o coração esforços sempre valem à pena.
Fui para o samba e recebi o carinho silencioso da minha amiga Ana, que foi uma das testemunhas do meu tempo de felicidade. Obrigado Ana, pelo seu respeito em não me perguntar nada e por deixar-me quieto mesmo estando na sua mesa.
Bebi muito, cantei uns sambas, bebi mais algumas e vim embora. O sábado e o domingo também não foram normais. O coração em estado de torpor enquanto em todos os momentos a razão invadia a minha mente.
Agora só falta eu comunicar a mim mesmo que nada acabou, mas que tudo murchou em mim, a razão tomou conta. Falta pouco diante de todo esse tempo de solidão para que eu possa verdadeiramente despertar diante de tudo que vivi.
Benção minha mãe, sábias eram as suas palavras: “O que não tem remédio, remediado está”.
Disse o poeta que quem acha vive se perdendo, nessa eu achei e me perdi, mas valeu! Tenho mais é que abrir minhas janelas e deixar o sol entrar.
Gosto do olho no olho, eu gosto de todas as verdades por piores que sejam, fico feliz ao ouvir um não, porque o não é um renascer que nos leva a tomar outros rumos. O que eu não gosto é de jogo de gato e rato, principalmente quando o rato sou eu.
Tenho pagado altíssimo preço por ser direto, mas por outro lado sinto-me imensamente feliz em ser como sou. Alguns dizem que sou grosso, outros se assustam, o importante para mim é que foi assim que conquistei os verdadeiros amigos. Foi assim que pautei minha vida e me sinto honesto em tudo que faço.
Interessantes são as palavras, principalmente as que são escritas. O que é escrito é interpretativo, cada um de nós entende à sua maneira. Ontem quando eu disse ter “vontade de chutar o balaio com tampa e tudo” era um balaio só. Era o balaio das indefinições de uma pessoa a quem amo. Balaio que prejudica muito a esta pessoa e que aos poucos também vai destruindo outros balaios...
O pitoresco dessa história, embora a mesma não tenha graça nenhuma, é que vários dos meus amigos do facebook – cada uma à sua maneira – interpretaram minhas palavras como um lamento, aqui abro um parêntesis para agradecer a todos pelo carinho e pela preocupação comigo.
Não ando lamentando nada pessoal. Foi com muita dificuldade que finalmente entendi que a paciência, mesmo tendo limites, é uma virtude. Virtude que a cada dia que nasce me faz enxergar o mundo de maneira diferente. Na paciência sobra o tempo exato para que saibamos e sintamos quando a mesma vai chegando ao seu final.
É no final da paciência que chegamos ao final da estrada e aí, ou tomamos a nossa decisão de lutar pela causa de outras maneiras ou simplesmente esquecemos. No meu caso ando me sentindo, mesmo sem querer, perto do fim da estrada que citei.
No mais estou bem. Novas perspectivas de trabalho, amigos que querem ver meu sucesso, meus netos a cada dia respiram melhor os ares da vida, meu samba me consola.
Os sonhos são muito poucos, mas ainda existem.
A barra está pesada, mas Deus está segurando as minhas mãos.
Hoje seria uma noite para sentar-me ao lado de uma pessoa de confiança, ouvir e falar. Uma garrafa de vinho, queijos, e quem sabe até umas flores decorando uma sala qualquer. A companhia deveria ser uma mulher, não pelo prenuncio de romance, mas pela sensibilidade, pelo aconchego da alma e até pelo tom da voz. Hoje não estou preparado para a dureza dos homens, homens encaram o mundo com outras óticas.
É... Hoje eu precisava mesmo era de um colo onde eu pudesse derramar minhas dúvidas, deduções, tomar decisões firmes e definitivas.
Eu também saberia ouvir, ouvir é mais sábio que falar. Na verdade eu gostaria de partilhar momentos que expusessem verdades de maneira suave, ando muito machucado com as asperezas da vida.
Mas dentro da suavidade poderíamos desnudar a alma e talvez até umas lágrimas valessem à pena. Nada de angustia, as lágrimas serviriam apenas para nos ajudar a lavar a alma e engrandecer os sentimentos.
E quanto esgotássemos o diálogo, iríamos para uma janela e de lá vislumbraríamos os horizontes de nós mesmos. O ar frio entraria pelos pulmões e aguçaríamos as vistas para o eterno girar dos giros que o mundo dá.
Na despedida com certeza estaríamos mais fortes, mais preparados para os amores e desamores que existem em nós. Um olharia para o outro sorrindo, juntos agradeceríamos a Deus, e novamente cada um seguiria seus caminhos.
Mas hoje não vai dar, vou ficar aqui mesmo conversando com esta tela fria. A noite está tão linda, que pena!
Interessantes são algumas pessoas. Entram nas nossas dores, emitem opiniões, brincam com nossos sentimentos às vezes alegando que querem nos ajudar...
Raramente se posicionam claramente, preferem ficar em cima do muro de si mesmas, mas desmoronam nossos muros com comentários engraçados...
Sei que estou exagerando nas reticências, mas elas existem. Não sou de incomodar com esta situação, já vivi o bastante para saber conviver com esse defeito humano e apenas me dói quando a atitude parte de quem gosto e por quem tenho respeito.
Ao invés de tentarem “alegrar” poderiam abrigar-me dentro do peito, tapinhas nas costas não acalentam porque cada um de nós sabe exatamente onde mora a sua dor.
Se não têm ou não podem abrir suas verdades, o silêncio já seria uma grande ajuda.
Não estou tentando corrigir nada nem ninguém, apenas vou deletar do meu mural tudo que não venha de peito aberto, com reticências...
Dizerem que não querem me ver triste é apenas um peso de palavras que não condizem com o que deixa de ser dito. Gosto mais das ações e do que é dito pessoalmente.
Cansei de ser joguete e nunca aceitei nem vou aceitar brincadeiras com a minha dor, com meus momentos, com o que só eu sinto dentro do peito. Estou só por opção, passei da idade de apenas sexo, estou na idade do amor e o meu amor sou eu quem escolhe.
A ajuda que preciso é a ajuda do respeito porque o resto eu resolvo à minha maneira, sempre dei conta de mim mesmo. E tanto isto é verdade que me exponho completamente no meu mural e no meu blog; exponho-me no samba ou onde me der vontade. Só é preciso que certas pessoas entendam que o fato de eu me expor não é porta aberta para que entrem... Só entra quem eu quero e como quero.
Não sou covarde, não choro apenas no escuro do meu quarto, sou transparente comigo mesmo, não finjo para viver. Sou parceiro e assumo de frente todas as situações desde que receba do outro lado a verdadeira solidariedade.
Fico feliz em saber que muitos amigos acompanham o que escrevo, isto me ajuda a seguir estradas. Mas a verdade é que gosto de escrever e como não sou Mestre Affonso o tempo todo e vivo sozinho, escrever é companhia, fuga, ou sei lá o quê...
Brincar é muito bom desde que estejamos em momento de felicidade, o que não é o meu caso.
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